Um dos focos de incêndio no Pantanal. Foto Mayke Toscano/Secom-MT

Já são mais de 40 dias em chamas. O fogo no Pantanal matogrossense já consumiu cerca de 19% do bioma. Apenas neste mês de setembro, 164 focos de incêndio avançaram sobre terras indígenas (TIs) no Pantanal. Mais de 200 em agosto. Quase 50% das áreas indígenas regularizadas na região já enfrenta queimadas – que têm cercado aldeias, destruído casas e plantações e levado a internações por problemas respiratórios.

Até o momento, cinco fazendeiros são investigados por terem contribuído com o início das queimadas na região da Serra do Amolar, em Corumbá (MS). Um dos suspeitos foi preso em flagrante, em casa, por posse irregular de arma de fogo e munição. Intitulada de Operação Matáá, a ação, que na língua guató significa “fogo”, teve início na última segunda-feira (14/09) com a finalidade de cumprir 10 mandados de busca e apreensão e apurar quem contribuiu para início do incêndio. Cada um dos suspeitos é dono de uma fazenda diferente na região onde a operação é realizada.

De acordo com a PF, os suspeitos podem responder pelos crimes de dano a floresta de preservação permanente, dano direto e indireto a unidades de conservação, incêndio e poluição (Art. 54, da Lei no 9.605/98), cujas penas somadas podem ultrapassar 15 anos de prisão.

Segundo os números do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – Inpe – foram 5.603 registros de focos de incêndio no Pantanal até 16 de setembro, ainda que o período seja só metade do mês. O recorde anterior para o mês de setembro era de 2007, quando, no mês todo, foram registrados 5.498 focos. Os focos de queimada neste mês já são mais que o dobro de tudo que foi registrado em setembro de 2019.

Um grupo com mais de 200 empresas e ONGs, incluindo nomes brasileiros como JBS e Marfrig, também enviou carta ao governo propondo medidas contra a devastação. Uma das preocupações é que as queimadas atrapalhem a reputação de empresas brasileiras no exterior.

O Senado instalou, na quarta-feira (16), uma comissão temporária para acompanhar o combate aos incêndios que vêm ocorrendo no Pantanal. Na pior seca em quase 50 anos, o Pantanal já perdeu para as queimadas 19% de sua área total, cerca de 2 milhões e 900 mil hectares. O colegiado vai avaliar de perto o que pode ser feito para intensificar o combate aos incêndios, além de tomar providências para prevenção no futuro.

A BBC News Brasil ouviu especialistas que explicaram seis fatores que apontam que o fogo que atinge o Pantanal somente deve ser controlado quando houver chuvas na região. Além disso, as intervenções do poder público começaram tardiamente e, no atual contexto das queimadas, pouco ajudam a controlar o fogo. Fatores que tornam os incêndios difíceis de serem controlados:

Período extremamente seco

O ano de 2020 é considerado um dos mais secos da história recente do Pantanal, localizado na Bacia Hidrográfica do Alto Paraguai (BAP). Entre outubro e março, a região do Pantanal, importante área úmida do planeta, teve volume de chuva 40% menor que a média do mesmo período em anos anteriores.

O ‘fogo subterrâneo’

O fogo de turfa, também chamado de “fogo subterrâneo”, queima sem que as pessoas percebam. Os sucessivos períodos de secas e cheias nas estações da região criam camadas de matéria orgânica no solo. Os brigadistas costumam dizer que é como se fosse um sanduíche: uma camada de terra, outra de vegetação, outra de terra, e por aí vai.

Imagens de drones mostram antes e depois da Rodovia Transpantaneira ser atingida pelos incêndios no Pantanal

Áreas de difícil acesso

O bioma tem inúmeras áreas que somente podem ser acessadas por meio de barcos ou aeronaves. O Pantanal é uma região extensa e com grandes fazendas a serem percorridas (cerca de 95% do bioma brasileiro pertencem a propriedades privadas, segundo levantamentos). Não há tantas estradas e em muitas das que existem não é possível trafegar com velocidade.

Os ventos

Quando conseguem chegar ao local do incêndio, a equipe pode ter dificuldades causadas pelos ventos, que podem mudar de direção subitamente. e o vento está rápido, o fogo também estará. Se venta para a direita, o fogo vai para a direita. É o principal fator para determinar a intensidade e a direção do fogo.

A falta de conscientização

Os incêndios que atingem o Pantanal têm causas humanas, segundo especialistas. Segundo Júlio Sampaio, do WWF, uma das principais causas atualmente são as práticas agrícolas e pecuárias, que têm o fogo como importante recurso.

A demora para agir e o pouco combate

De acordo com os especilistas ouvidos pela BBC Brasil, a região do Pantanal sofre com a seca e um número incomum de queimadas desde os primeiros meses do ano, mas as autoridades só demonstraram preocupação com o bioma quando os incêndios atingiram níveis alarmantes.

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