Por Gustavo Penteado e Nathalia Teixeira

Para reviver e homenagear a dura vida do vaqueiro Nordestino, todo mês de junho, na pequena cidade de Serrita, a 554 km de Recife, no Sertão Pernambucano, é realizada a tradicional Missa do Vaqueiro. O evento já é considerado um patrimônio cultural do estado e tem forte significado para o sertanejo assim como para a economia da região. Todo ano, o evento atrai um público em torno de 50 mil pessoas que desfrutam de shows, pega de boi, vaquejada, debates, palestras e feira de artesanato e claro, muita fé.

A celebração da missa é conduzida por um padre e o canto inicial é entoado por um popular cantor nordestino, geralmente destacando a identificação do vaqueiro nordestino com a fé e as dificuldades sofridas nas terras secas do sertão. Todos os hinos são cantados com devoção pelos vaqueiros que assistem a tudo de cima dos seus cavalos, fazem comunhão com queijo e rapadura, pedem a benção das vestes típicas (gibão, perneiras, luvas espora, chocalho, entre outros) e dividem os momentos de fé e homenagem com as centenas de turistas que anualmente prestigiam o evento.

Além do aspecto religioso e da prova da fé, a missa também tem um caráter político contestador, reivindicatório. É um espaço para o exercício da cidadania. “Para os vaqueiros a missa é o lugar onde eles podem interagir com os vaqueiros de outras localidades, terem a chance de lutarem por seus direitos, serem vistos e respeitados, e cobrarem dos governantes mais atenção para com a classe”, nos diz um dos organizadores, Thiago Câncio. A luta a qual Thiago se refere é o reconhecimento da atividade de vaqueiro como profissão visto o desempenho de suas atividades nas fazendas do Nordeste.

Quanto à importância do evento junto aos vaqueiros, Thiago Câncio acrescenta: “Um, completa o outro, pois o vaqueiro é a principal estrela do evento e a Missa do Vaqueiro só existe hoje por causa desse “homem corajoso e destemido”. É em meio a esta vegetação endêmica, que existe unicamente no nordeste brasileiro, e que esses vaqueiros lutam para sobreviver.

A caatinga apresenta características peculiares como os rios temporários e o clima semiárido com irregularidade de chuvas (que são quase escassas durante todo o ano), ocorrendo o fenômeno da seca. A vegetação xenófila, adaptado às condições de aridez, com raízes grandes – para armazenar muita água, espinhos e folhas secas – para não perder água por evaporação, aparenta estar morta, mas basta receber um pouco de água para ficar tudo verde outra vez. O solo, apesar de seco, também é bastante fértil devido à bravura e à coragem dessa figura lendária do vaqueiro.

Origem de um dos maiores eventos de fé e tradição do Brasil, a Missa do Vaqueiro foi celebrada pela primeira vez no ano de 1970, em homenagem ao bravo vaqueiro Raimundo Jacó. Ele foi brutalmente assassinado no meio da Caatinga em Serrita no ano de 1954, após sair em busca de uma rês desgarrada perdida entre a vegetação seca. Não se sabe ao certo o autor do crime, pois o acusado foi julgado e liberado por falta de provas.

Mas reza a lenda de que ele teria sido morto por um companheiro de trabalho da mesma fazenda para a qual Raimundo Jacó prestava serviço. “Raimundo levava uma vida de desapego total, mas era um homem de muita fé e capaz de grandes gestos”, foi assim como descreveu seu primo, Luiz Gonzaga, o famoso “Rei do Baião” e lenda da música brasileira.

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