Por Carmem Gusmão

O corpo humano foi o primeiro suporte para a pintura. Nossos ancestrais cedo perceberam que a pele ficava muito mais bonita e atraente coberta com símbolos e pigmentos. A pintura corporal é, sem dúvida, uma das maiores expressões da arte indígena.

A roupa do índio Kayapó (floresta amazônica), por exemplo, é a pintura do seu próprio corpo. Traços, formas e cores impressas na pele indicam a idade e o número de filhos de cada um. A pintura pode ser um enfeite, pode distinguir os diferentes grupos ou indicar o estado de guerra na aldeia. A tinta vermelha é extraída do urucum, o azul e o preto do jenipapo e o branco do calcário. É importante ressaltar que a pintura corporal não tem apenas a dimensão ritualística, mas cumpre também um papel estético.

As pinturas no corpo são representações espirituais retiradas da natureza. As variedades de formas geométricas foram ensinadas pelo IDJASO (espíritos do bem e do mal), e são reproduzidos pelos pintores da tribo. Possuem nomes diferentes que simbolizam animais ou plantas do rio e da floresta. Diferentes pinturas são usadas de acordo com o sexo e a condição social dentro da comunidade.

Na minha experiência de 3 meses junto com os índios Kayapós fiquei maravilhada em poder ver de perto esse processo. É incrível poder constatar que no lugar de pincéis eles utilizam uma simples vareta de buriti, que parece mesmo uma varinha mágica transformando corpos suados em arte viva!

Durante muito tempo a prática de pintura corporal, fora das comunidades indígenas, ficou restrita ao campo de cosmética facial. Hoje, porém, existe uma expressão artística chamada “body painting”, que tenta recuperar a magia transformadora daquelas primeiras experiências. Temos meios bem mais sofisticados que nossos ancestrais e atualmente está na moda a hena e o airbrush, assim como pinturas acrílicas e naturais.

O corpo descobre uma nova beleza a ser suporte da velha arte que renasce agora…. Imagine uma tela… caminhando, sorrindo e passando sutilmente pela multidão que prestigia uma vernissage.

“É como mergulhar na obra de um surrealista e brincar de ser Deus!”

 

*Carmem Gusmão nasceu em Minas Gerais, Brasil, mas cresceu na Amazônia no coração da floresta tropical. Ela já ganhou vários prêmios e reconhecimentos desde 1988. Suas pinturas ricamente coloridas, místicas e emotivas têm um poderoso impacto emocional. Mais recentemente, ela incorporou o design e criação de joias em seu trabalho .

 

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