Um estudo internacional conduzido pela Universidade de Michigan indica que pessoas de diversos países, incluindo o Brasil, tendem a reagir mais intensamente a notícias negativas do que positivas. A pesquisa sugere que esse comportamento pode estar relacionado tanto à evolução humana quanto aos hábitos de consumo de informação.
Por  Mario Eugenio Saturno 
Os pesquisadores sugerem que o viés da negatividade pode ter origem na evolução humana, como mecanismo de sobrevivência.

Os pesquisadores sugerem que o viés da negatividade pode ter origem na evolução humana, como mecanismo de sobrevivência.

Um estudo da Universidade de Michigan, intitulado Cross-national Evidence of a Negativity Bias in Psychophysiological Reactions to News (“Evidência internacional de um viés de negatividade nas reações psicofisiológicas às notícias”), analisou como pessoas de 17 países reagem a diferentes tipos de notícias.

Publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), o trabalho concluiu que, de forma geral, os participantes demonstraram maior interesse e reação fisiológica diante de conteúdos negativos do que de notícias positivas.

Os pesquisadores destacam que os meios de comunicação desempenham um papel essencial ao conectar governos, instituições e sociedade, sendo fundamentais para o funcionamento das democracias. O estudo também observa que, embora a cobertura jornalística já apresente um viés mais negativo há décadas, essa tendência tem se intensificado nos últimos anos.

A Mídia Produz Mais Notícias Negativas ou o Público as Procura?

Segundo os autores, a predominância de notícias negativas não pode ser atribuída apenas aos veículos de comunicação.

Pesquisas anteriores apontam que a própria demanda do público influencia esse cenário. Conforme observou o pesquisador J. Dunaway (2013), o interesse dos consumidores estimula uma maior oferta desse tipo de conteúdo.

Da mesma forma, estudos conduzidos por J. T. Cacioppo (1999) indicam que, embora muitas pessoas afirmem desejar notícias mais positivas, na prática tendem a escolher conteúdos negativos com maior frequência.

Esses resultados sugerem uma diferença entre aquilo que as pessoas dizem preferir e o comportamento efetivamente observado durante o consumo de notícias.

O Que Explica Essa Preferência?

Uma das hipóteses apresentadas pelos pesquisadores está relacionada à teoria da evolução.

Ao longo da história da humanidade, prestar atenção a ameaças, perigos e riscos poderia aumentar as chances de sobrevivência. Assim, o cérebro humano teria desenvolvido uma tendência natural para responder com maior intensidade a informações potencialmente negativas.

Essa característica, conhecida como viés da negatividade (negativity bias), tem sido identificada em diversas pesquisas realizadas em diferentes populações ao redor do mundo.

O Caso do Brasil

Durante os experimentos, os pesquisadores analisaram indicadores fisiológicos como a variabilidade da frequência cardíaca e a condutância da pele, medidas frequentemente utilizadas para avaliar respostas emocionais e níveis de atenção.

Em média, os participantes apresentaram respostas fisiológicas mais intensas ao assistir notícias negativas.

Embora esse comportamento não tenha ocorrido da mesma forma em todos os países analisados, Brasil, Canadá, França, Itália e Suécia registraram respostas significativamente mais elevadas diante de conteúdos negativos.

Segundo os autores, esses resultados reforçam que o chamado viés da negatividade está presente em diferentes culturas, embora sua intensidade varie entre as populações.

O Que os Resultados Significam?

Os pesquisadores não afirmam que os brasileiros “gostam” de notícias ruins, mas que tendem a responder de forma mais intensa a esse tipo de conteúdo, assim como ocorre em diversos outros países.

O estudo sugere que compreender esse comportamento pode contribuir para análises sobre consumo de notícias, funcionamento da mídia e processos de tomada de decisão, além de oferecer novos caminhos para pesquisas sobre psicologia, comunicação e comportamento humano.

* Mario Eugenio Saturno é Tecnologista Sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e congregado mariano.

FAQ – Perguntas Frequentes

O que é o viés da negatividade?

É uma tendência psicológica segundo a qual pessoas costumam prestar mais atenção e reagir com maior intensidade a informações negativas do que positivas.

O estudo afirma que os brasileiros gostam de notícias ruins?

Não. A pesquisa indica apenas que os participantes brasileiros apresentaram respostas fisiológicas mais intensas diante de conteúdos negativos, o que não significa necessariamente uma preferência consciente.

Quantos países participaram da pesquisa?

O estudo analisou participantes de 17 países, comparando suas reações psicofisiológicas a diferentes tipos de notícias.

Como os pesquisadores mediram as reações?

Foram utilizados indicadores fisiológicos como a variabilidade da frequência cardíaca e a condutância da pele, que ajudam a identificar níveis de atenção e resposta emocional.

Por que o cérebro presta mais atenção às notícias negativas?

Uma das hipóteses é que esse comportamento tenha origem evolutiva, já que identificar rapidamente ameaças e perigos aumentava as chances de sobrevivência dos seres humanos.