A Constelação Familiar é apresentada como uma abordagem que busca identificar padrões emocionais e conflitos familiares associados à sensação de estagnação na vida. Neste relato, Simone Arrojo compartilha a experiência de uma participante que enfrentava perdas traumáticas e reflete sobre como o passado pode influenciar as relações familiares e a maneira de lidar com o presente.
Por Simone Arrojo

A Constelação Familiar é uma abordagem alternativa que explora as relações familiares e os padrões percebidos como recorrentes.
Você já ouviu falar em Constelação Familiar? Geralmente, as pessoas que procuram essa abordagem acreditam que a vida não está avançando ou que alguma área específica parece estar parada, como a financeira, a profissional, a afetiva ou a relacionada à saúde.
A vida simplesmente parece estar estagnada em algum ponto. Mas como podemos interpretar o que estaria bloqueando nosso caminho por meio de uma análise emocional, física, mental ou psicológica? Como entender o que realmente está acontecendo? Será que a vida deixou mesmo de avançar?
O tempo continua seguindo seu curso, como demonstram o nascer e o pôr do sol e os processos fisiológicos do nosso organismo, que funcionam independentemente de estarmos conscientes deles. O que movimenta nosso ser como um todo? O que comanda esse movimento e quais forças podem nos impedir de seguir em frente? Será que apenas a força de vontade resolve tudo? Será que querer mudar é suficiente?
Durante os workshops em que atuo como facilitadora de Constelação Familiar, surpreendo-me ao perceber como, muitas vezes, não conseguimos enxergar aspectos da nossa própria realidade.
Um relato sobre perdas, traumas e estagnação emocional
Em uma dessas experiências, atendi uma senhora que chegou com uma queixa direta: “Nada na minha vida anda”. Iniciamos a Constelação Familiar com uma representante para ela e outra para representar sua vida. Logo, a representante da vida deitou-se no chão, como alguém que estivesse morto, e coloquei outra representante, que também se deitou.
Utilizei uma técnica chamada Scalar Heart Connection, desenvolvida pelo naturopata Stephen Linsteadt. Segundo a abordagem utilizada nesse trabalho, a técnica emprega frequências numéricas para identificar possíveis traumas. Naquela sessão, a interpretação apontou para uma perda vivenciada quando a participante tinha apenas dois anos de idade.
Perguntei se ela havia perdido alguém na infância e se tinha passado por alguma situação de risco de morte na vida adulta, pois eram essas as possibilidades sugeridas pelo que aparecia durante a dinâmica.
A princípio, ela disse que não se lembrava de nada. Depois, como se o acontecimento não tivesse tido grande significado, contou que havia perdido um irmão quando tinha apenas dois anos. Mais tarde, já jovem, revezava com as amigas a responsabilidade de dirigir para que pudessem ir à faculdade. No dia em que estava ao volante, um carro bateu de frente com o veículo que ela dirigia, e uma das amigas morreu.
Segundo seu relato, essas eram as lembranças que conseguia identificar. Será que uma perda tão precoce pode continuar influenciando a maneira como alguém vive muitos anos depois? Na perspectiva apresentada pela Constelação Familiar, experiências posteriores semelhantes podem trazer à tona dores anteriores que ainda não foram elaboradas.
Durante a sessão, a filha da participante, que a acompanhava, chorava muito ao observar a dinâmica. A mãe, por sua vez, repetia: “Está tudo bem, isso foi há muito tempo”.
Como as relações familiares podem refletir dores do passado
Pedi que a participante entrasse no campo da constelação para olhar para o irmão e para a jovem que havia morrido no acidente. Também posicionei sua filha ao lado dela. A filha acariciava a mãe com muito amor, mas, na minha interpretação da dinâmica, expressava um amor semelhante ao de uma mãe por um filho, e não ao de uma filha por sua mãe.
A leitura que fiz naquele momento foi de que a filha estaria carregando parte da tristeza inconsciente da mãe, assumindo simbolicamente uma posição invertida na relação, como se fosse responsável por cuidar emocionalmente da própria mãe.

Simone Arrojo apresenta sua interpretação de como conflitos familiares podem repercutir nas relações entre pais e filhos.
Afinal, onde estaria a vida daquela mulher? Na perda do irmão, aos dois anos, e no trauma vivido aos 22 anos. O tempo continuou passando: ela se casou, teve filhos e trabalhou, entre outras experiências. Mas, dentro da interpretação proposta naquela sessão, uma parte de sua vida emocional continuava ligada àquelas perdas.
Nesse caso, a constelação apontou para a morte do irmão e para as marcas emocionais que, segundo a facilitadora, permaneceram associadas à experiência.
A dinâmica também levou a refletir sobre como as dificuldades emocionais de uma pessoa podem repercutir em suas relações familiares. Na interpretação apresentada, a filha também estaria sendo afetada pela tristeza materna, como se tivesse assumido a responsabilidade de carregar um sofrimento que não era originalmente seu.
A busca por uma nova perspectiva para seguir em frente
Durante a sessão, também utilizei os sons de mudança de frequência associados ao Scalar Heart Connection. Em seguida, trabalhamos com algumas frases dirigidas ao irmão, aos pais, à jovem que havia falecido e à filha. Ao longo da dinâmica, os representantes e participantes começaram a relatar uma sensação de alívio.
Na interpretação da abordagem utilizada, esse movimento indicava uma tentativa de restabelecer uma ordem nas relações familiares e reconhecer acontecimentos do passado. A sensação de alívio descrita durante o encontro foi acompanhada pela possibilidade de olhar para o presente com mais lucidez e tranquilidade. A proposta era ajudar a participante a reconhecer sua história e encontrar uma maneira de seguir em frente.
Muitas pessoas sentem que estão paradas por causa de experiências dolorosas ou de situações mal resolvidas em um casamento, por exemplo, e não sabem como lidar com essas questões. Outras acreditam estar envolvidas em conflitos que atravessam gerações e que continuam influenciando as relações familiares.
Bert Hellinger, criador da abordagem conhecida como Constelação Familiar, desenvolveu conceitos relacionados às chamadas leis e ordens familiares, que, segundo sua teoria, também poderiam ser observadas em empresas e na sociedade. Nessa perspectiva, dificuldades para avançar estariam relacionadas a situações percebidas como desordenadas dentro desses sistemas.
Quando conseguimos olhar para nossas experiências e reconhecer o que aconteceu, podemos iniciar um processo de compreensão do passado sem deixar que ele determine todas as nossas escolhas futuras. Seguir em frente não significa apagar o que vivemos, mas encontrar maneiras de conviver com nossa história e construir novas possibilidades no presente.
Nota de contexto: a Constelação Familiar é uma abordagem controversa, e suas interpretações sobre traumas, relações familiares e efeitos entre gerações não devem ser tratadas como diagnósticos comprovados. A experiência relatada pela autora representa sua interpretação de uma sessão específica. Para lidar com traumas, luto ou sofrimento emocional persistente, o acompanhamento de um profissional de saúde mental qualificado pode oferecer apoio baseado em evidências.
*Simone Arrojo vive em São Paulo e tem o programa “Virando a Pagina” na radio Mundial há vários anos. Mais recentemente ela adaptou a Constelação Familiar que já ministra há anos com a técnica do Scalar Heart Connection, e junto com Stephen Linsteadt, iniciou um trabalho ao redor do mundo que eles chamam de “Healing Circle” – www.simonearrojo.com.br – www.scalarheartconnection.com.br
FAQ — perguntas frequentes
1. O que é Constelação Familiar?
A Constelação Familiar é uma abordagem terapêutica alternativa desenvolvida por Bert Hellinger que utiliza representações de relações familiares para explorar conflitos e padrões percebidos como recorrentes. Sua eficácia para tratar problemas psicológicos não está estabelecida por evidências científicas robustas.
2. Como traumas emocionais podem afetar a vida adulta?
Experiências traumáticas podem influenciar emoções, relacionamentos, comportamentos e a percepção de segurança. Os efeitos variam de pessoa para pessoa, e o acompanhamento psicológico pode ajudar na compreensão e no enfrentamento dessas experiências.
3. O que é o método Scalar Heart Connection?
No relato de Simone Arrojo, o Scalar Heart Connection é apresentado como uma técnica desenvolvida pelo naturopata Stephen Linsteadt, que utiliza frequências numéricas e sons durante as sessões. Suas alegações de identificar traumas por frequências não devem ser consideradas um método de diagnóstico cientificamente validado.
4. Quem criou a Constelação Familiar?
A abordagem conhecida como Constelação Familiar foi desenvolvida pelo alemão Bert Hellinger, que formulou conceitos próprios sobre dinâmicas e ordens familiares.
5. Como buscar ajuda quando experiências do passado dificultam seguir em frente?
Reconhecer emoções, conversar com pessoas de confiança e procurar um psicólogo ou outro profissional de saúde mental qualificado são caminhos possíveis. Para quem vive nos Estados Unidos, também existem serviços de atendimento em português, presenciais ou on-line, conforme a disponibilidade e as regras profissionais aplicáveis.



