Criado em 1946 pelo estilista francês Louis Réard, o biquíni revolucionou a moda de praia e se tornou símbolo de liberdade, sensualidade e transformação dos costumes. No Brasil, a peça também se relacionou à história da emancipação feminina e ganhou força com figuras como Leila Diniz.
Por Lívia Caroline Neves | Edição: Sandra Lobo

O biquíni surgiu em 1946, criado pelo estilista francês Louis Réard, e seu nome foi inspirado no Atol de Bikini, onde os Estados Unidos realizavam testes nucleares.
O surgimento do biquíni, essa tão famosa e amada peça em quase todos os lugares do mundo, é, no mínimo, curioso.
O nome foi inspirado no Atol de Bikini, no Pacífico Sul, onde os americanos realizavam testes nucleares. E, realmente, o biquíni teve o efeito de uma bomba atômica no conservadorismo do pós-guerra.
Os puritanos tentaram bani-lo, e a imprensa chegou a prever que a moda não duraria quinze dias.
Equívoco imperdoável: o biquíni, que já está com 70 anos de idade, provou que o mundo fashion nunca utilizou tão pouco tecido para lançar uma tendência capaz de revolucionar o estilo das praias e piscinas do mundo todo.
São sete décadas de revolução no modo de se vestir em locais públicos e, claro, muita sensualidade.
Nada contra os gênios da ciência, mas, se existe alguém a quem a humanidade deveria agradecer, esta pessoa chama-se Louis Réard. Foi o estilista francês que, em 3 de julho de 1946, teve a brilhante ideia de criar um maiô de banho com muitos centímetros a menos que o habitual, revelando ao mundo todos aqueles detalhes únicos do corpo feminino que, até então, só eram vistos entre quatro paredes.
A popularização do biquíni
Os biquínis chegaram ao cinema como embalagem das estrelas. Em 1956, Brigitte Bardot provocou furor no filme E Deus Criou a Mulher.
Oito anos mais tarde, usando um generoso biquíni, a musa francesa transformou a pacata vila de pescadores de Búzios em um balneário mundialmente conhecido. Em 1965, foi fotografada com um biquíni xadrez enfeitado com babadinhos. As mulheres do mundo inteiro resolveram, então, copiá-la.
O biquíni se popularizou nos anos 60, quando uma variedade nunca vista de fórmulas para revelar o corpo feminino começou a aparecer.
O apelo vinha de longe, ligado ao esporte, sem tanta preocupação estética. Era um estilo de viver e de vestir refletido nos filmes de diálogos leves e roteiros ingênuos, que tentavam exaltar as maravilhas do surfe, saído do Havaí.
Prometiam um mundo mais naturalista, dedicado ao culto do mar e do sol, vestidos de estamparias primitivas, bicolores, com hibiscos do Taiti, sandálias de borracha, cabelos lisos e longos, sem laquês e desfiados.
Há quem ainda insistisse em vestir os padrões da helanca, sem dar atenção ao estilo muito mais leve e colorido dos surfistas nas pranchas de madeira, dentro das ondas “tubo”.
Passo a passo, com a pílula e a liberação sexual, o biquíni foi mexendo com a cabeça do Brasil e do mundo e adquiriu o seu espaço.
Para se ter uma ideia, o controverso Jânio Quadros, na época presidente da República, chegou a proibi-lo. E as duas peças de bolinhas amarelinhas ingênuas, que Ronnie Cord cantava, foram cedendo lugar a formas e atitudes cada vez mais ousadas.
Anos 70: ousadia e quebra dos padrões

A peça provocou uma verdadeira revolução no conservadorismo do pós-guerra, chegando a ser alvo de tentativas de proibição e de previsões de que seria apenas uma moda passageira.
Polêmica e ousadia aconteceram mesmo na década de 70, quando a quebra dos padrões morais foi tão grande que o mundo ficou abalado.
Passar o dia na praia era o objetivo máximo da população costeira. A estética arrumadinha dos anos 60 foi convertida em jovens de calça jeans, cabelos desgrenhados e roupas que podiam ser pudicamente longas, como as saias indianas, ou audaciosamente exibicionistas, como as túnicas transparentes.
Qualquer coisa que lembrasse apertos ou artificialismos, como o sutiã, era execrada.
Improvisos dominavam as praias, onde homens iam de tangas de couro ou crochê, e as mulheres diminuíam os biquínis.
Na onda do sucesso, novos modelos desfilavam pelas areias do mundo: sutiã sem amarração ou enchimento e calcinhas amarradas com alças finas.
Detalhes coloridos nas laterais traziam um espírito meio tribal, que neutralizava a realidade sintética dos jérseis tipo Agilon, que secavam rápido e tinham cores firmes, além de aderirem ao corpo de um jeito inédito.
E no Brasil? Leila Diniz
Leila Diniz fez história ao valorizar a liberdade, o prazer sexual, a independência feminina e o modo bem-humorado e irreverente de viver.
A condição de atriz lhe permitiu ter acesso aos meios de comunicação para reafirmar publicamente suas ideias e comportamentos. A partir daí, muitas mulheres tomaram coragem e começaram a se comportar de forma diferente, tendo como modelo a sensual Leila Diniz.
Foi também na década de 70 que Leila Diniz, com seu comportamento revolucionário, chocou o país ao amamentar em público e exibir de biquíni, na praia de Ipanema, sua barriga de grávida.
Leila mostrou de forma pioneira sua gravidez fora do casamento, quebrando o modelo feminino de mulher como esposa-mãe.
Ela inventou seu lugar no mundo, fez um nome e tornou-se palavra reconhecida em músicas e poemas.
Morreu aos 27 anos em um acidente de avião, em 1972. Mas suas lições ficaram gravadas na memória de todos que conviveram com ela e também dos que a admiravam. Era uma pessoa livre e em paz com o mundo.
Anos 80: a era do biquíni asa-delta
Mas a moda do biquíni não parou por aí.

Brigitte Bardot ajudou a popularizar o biquíni internacionalmente, enquanto sua presença em Búzios contribuiu para transformar a vila de pescadores em um destino turístico mundialmente conhecido.
A década de 80 exigia corpos perfeitos, modelados em academias para serem exibidos no verão. O surgimento de um novo material — a lycra, criação da indústria química DuPont — e do estilo aeróbico trazido das aulas de ginástica influenciaram os estilistas na criação de novos biquínis e maiôs.
Os biquínis eram mais largos do que os triangulares mínimos dos anos 70, mas com uma curva pronunciada, desenhada como asas voadoras.
Surge, então, o famoso biquíni asa-delta.
A mistura de origens abriu novos caminhos para o comércio. Os anos 80 trouxeram cavas pronunciadas acentuadas por debruns, estampas florais e abstratas e estampas inspiradas em peles de animais.
Correndo por fora, chegou o artesanal, como sempre. Vindas de Bali, as cangas de tear mudaram o visual da praia, substituindo as camisetas grandes e camisas sociais masculinas que, até então, serviam de “saídas”.
Os homens adotaram calções maiores, enquanto os surfistas autênticos aderiram ao neoprene, couraça negra com vivos coloridos, copiados dos mergulhadores submarinos.
As mulheres chegaram ao fim da década no auge da nudez, quando o asa-delta foi reduzido ao fio dental.
Um verdadeiro sucesso, documentado para a posteridade mundial em milhares de cartões-postais, onde bumbuns bronzeados deitados nas areias são tão cariocas quanto outras elevações turísticas, como o Corcovado e o Pão de Açúcar.
Anos 90: o retorno de estilos e a geração saúde
Nos anos 90, aconteceram revivals na moda de praia.
Saímos do asa-delta para o biquíni baixo, o chamado saint-tropez. Adotamos o biquíni de crochê, que havia sido moda nos anos 70.
A lateral e os lacinhos ficam menores, e aumenta-se o tamanho traseiro. Entra na moda o sutiã meia-taça, com suportes, e o de cortininhas.
Chegamos ao final da década de 90 com o estilo academia de vestir.
Chega a vez da geração saúde, e as areias continuam pedindo corpos esbeltos, no entanto, agora mais atléticos do que nos anos 80.
As cangas, pouco a pouco, foram sendo substituídas pelos shortinhos de cotton lycra e, depois, pelas sainhas de lycra.
A moda vai ficando cada vez mais funcional. Não se usa mais a lycra para malhar, e sim misturada com o algodão, permitindo a pele respirar melhor.
Derruba-se o mito de que suar emagrece.
A moda masculina não muda muito, e voltam os sungões usados nos anos 50. As bermudas de tactel ficam um pouco de lado; os homens querem também exibir seus corpos.
E assim caminha a moda, indo e vindo, seguindo o comportamento da época, refletindo o estilo, numa maneira brasileira de ser.
Do início dos anos 2000 aos dias atuais
Nos anos seguintes, a indústria têxtil aposta no sucesso dos biquínis com modelagens bem pequenas e cavadas: biquínis de cintura baixa e maiôs recortados nas laterais e presos com uma argola no centro.
Misturam-se também partes lisas com estampadas e cores vivas e diferentes na mesma produção, surgindo assim coleções de moda-praia.
Como muitos dizem, o biquíni foi um acidente geográfico que virou nome de uma ousadia praiana, reforçando a imagem do Brasil como um país alegre e tropical.
E ele continua cada vez mais na moda.
Apesar da idade, ele, que já passou por várias transformações, continua conquistando e seduzindo os olhos de quem vê, transformando os corpos de quem veste, colorindo as praias cariocas e outras praias Brasil e mundo afora, deixando o restante do mundo admirado com nossa criatividade e ousadia.
A história do biquíni, sem dúvida, se confunde com a história da revolução feminina no Brasil.
Perguntas frequentes sobre a história do biquíni
1. Quando o biquíni foi criado?
O biquíni foi criado pelo estilista francês Louis Réard em 3 de julho de 1946. A peça tinha muito menos tecido do que os trajes de banho utilizados até então e provocou forte reação na sociedade da época.
2. Por que o biquíni recebeu esse nome?
O nome foi inspirado no Atol de Bikini, no Pacífico Sul, onde os Estados Unidos realizavam testes nucleares. A escolha fazia referência ao impacto que o novo traje de banho deveria causar.
3. Quem popularizou o biquíni?
A atriz francesa Brigitte Bardot teve papel importante na popularização mundial do biquíni, especialmente após sua aparição no filme E Deus Criou a Mulher, de 1956, e posteriormente em Búzios.
4. Qual foi a importância de Leila Diniz para a história do biquíni no Brasil?
Leila Diniz tornou-se símbolo de liberdade feminina e rompeu padrões sociais ao aparecer de biquíni grávida na praia de Ipanema. Seu comportamento ajudou a questionar o modelo tradicional de mulher associado exclusivamente aos papéis de esposa e mãe.
5. O que é o biquíni asa-delta?
O biquíni asa-delta foi um dos modelos marcantes da moda de praia dos anos 80. Caracterizado por cavas bastante pronunciadas, tornou-se símbolo da estética da década e posteriormente abriu caminho para modelos ainda menores, como o fio dental.




