A Califórnia passou, em pouco mais de duas décadas, de um dos estados mais hostis aos imigrantes para um dos principais símbolos de proteção a comunidades migrantes nos Estados Unidos. A virada começou após a aprovação da Proposição 187, em 1994, e impulsionou uma nova geração de lideranças latinas. Hoje, o estado se posiciona como contraponto às políticas federais mais restritivas, reafirmando seu papel como “estado santuário”.
No dia 9 de novembro de 2019, entre 10h e 16h, o centro de Los Angeles foi palco do evento gratuito “Rally of Our Rights”, organizado pela entidade sem fins lucrativos Somos Califórnia, que reuniu milhares de imigrantes.
Com forte cunho político, mas também com apresentações culturais de artistas latinos como Peter Escovedo e Poncho Sanchez, o ato relembrou os direitos dos imigrantes indocumentados e trouxe à memória uma data decisiva: 8 de novembro de 1994, então 25 anos antes.
1994: terremoto, eleição e uma lei excludente
Naquele ano, a Califórnia enfrentava dois acontecimentos marcantes. Além do devastador terremoto de Northridge, os imigrantes indocumentados acordaram com duas más notícias:
a reeleição do governador republicano Pete Wilson, que fazia da criminalização da imigração irregular uma de suas principais bandeiras;
e a aprovação da Proposição 187, que previa a negação de serviços públicos de saúde, educação e assistência social a pessoas sem status migratório regular.
A Proposição 187 e o efeito político duradouro
Embora a Proposição 187 tenha sido posteriormente considerada inconstitucional pelos tribunais federais, seu impacto político e simbólico foi profundo.
O medo e a mobilização gerados por aquela medida acabaram impulsionando uma transformação duradoura no estado. A partir de uma legislação explicitamente anti-imigrante, a Califórnia iniciou, ao longo das décadas seguintes, uma virada política que a levaria a se consolidar como um dos principais “estados santuário” dos Estados Unidos.
Uma nova geração de lideranças latinas
Esse processo coincidiu com o fortalecimento de uma nova geração de lideranças latinas, muitas delas diretamente afetadas pela 187 ou filhas de imigrantes.
Jovens que, nos anos 1990, viram suas comunidades serem alvo de políticas excludentes decidiram ingressar na política institucional como forma de resistência.
Xavier Becerra e Alex Padilla
Entre esses nomes estão Xavier Becerra e Alex Padilla. Becerra foi procurador-geral da Califórnia entre 2017 e 2021 e, posteriormente, assumiu o cargo de secretário de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, no governo Joe Biden.
Já Alex Padilla, que à época do texto original era secretário de Estado da Califórnia, tornou-se em 2021 o primeiro senador latino da história do estado, cargo que ocupa até hoje.
Ambos tiveram atuação central na resistência às políticas migratórias do presidente Donald Trump em seu primeiro mandato (2017–2021), período marcado por retórica dura contra imigrantes, tentativas de enfraquecimento do DACA, separação de famílias na fronteira e esforços para a construção do muro.
Naquele momento, a Califórnia, governada por democratas e com maioria progressista no Legislativo, tornou-se a linha de frente jurídica contra o governo federal.
Ações judiciais e protagonismo estadual
Somente durante o governo Trump, o estado moveu dezenas de ações judiciais contra medidas consideradas anti-imigrantes, incluindo processos:
em defesa dos “dreamers”;
contra a tentativa de incluir a pergunta sobre cidadania no Censo;
e contra políticas de detenção indefinida de crianças migrantes.
Vigilância contínua e novos embates (2021–2025)
Nos anos seguintes, mesmo com a eleição de Joe Biden, a Califórnia manteve sua postura de vigilância e protagonismo.
Embora o discurso federal tenha se tornado mais favorável aos imigrantes a partir de 2021, impasses no Congresso, decisões da Suprema Corte e o aumento do fluxo migratório reacenderam tensões nacionais sobre o tema. O estado continuou ampliando políticas próprias, como a limitação da cooperação entre forças policiais locais e agentes federais de imigração.
O retorno de Trump e a reafirmação do estado santuário
Em 2024 e 2025, com o retorno de Donald Trump à presidência e a retomada de propostas mais rígidas na política migratória federal, a Califórnia voltou a ocupar papel central de oposição institucional.
O governador Gavin Newsom reforçou o compromisso do estado com leis de proteção a imigrantes, enquanto o Ministério Público estadual retomou estratégias jurídicas semelhantes às adotadas anos antes.
Uma virada que segue moldando o debate nacional
A trajetória da Califórnia, da aprovação de uma das leis mais duras contra imigrantes nos anos 1990 à consolidação como estado santuário nas décadas seguintes, mostra como políticas de exclusão podem, paradoxalmente, gerar mobilização, lideranças e mudanças estruturais profundas.
FAQ – Perguntas Frequentes
1. O que foi a Proposição 187?
Foi uma medida aprovada em 1994 que pretendia negar serviços públicos a imigrantes indocumentados na Califórnia.
2. A Proposição 187 está em vigor?
Não. Ela foi considerada inconstitucional por tribunais federais.
3. O que significa “estado santuário”?
Refere-se a estados ou cidades que limitam a cooperação com autoridades federais de imigração.
4. Qual o papel da Califórnia hoje no debate migratório?
O estado atua como contraponto a políticas federais restritivas e amplia proteções locais.
5. Quem são os principais líderes ligados a essa virada política?
Xavier Becerra, Alex Padilla e o governador Gavin Newsom estão entre os principais nomes.
