A Netflix transformou a indústria cinematográfica ao investir em produções próprias, ampliar a distribuição digital e disputar espaço com os grandes estúdios de Hollywood. Em 2026, a relação entre streaming, salas de cinema e premiações mostra que o futuro do setor depende de novas estratégias de produção, lançamento e conquista do público.
Por Lindenberg Junior

A Netflix transformou o mercado cinematográfico ao combinar produção própria, distribuição digital e alcance global.
A indústria cinematográfica atravessa uma transformação profunda, impulsionada pelo crescimento dos serviços de streaming, pelas mudanças nos hábitos de consumo e pela disputa por grandes produções capazes de atrair espectadores. A experiência de assistir a filmes nas salas de cinema já não ocupa o mesmo espaço na vida de todas as gerações, enquanto plataformas digitais oferecem catálogos variados e a possibilidade de assistir a diferentes títulos no conforto de casa.
Para muitos jovens, a conexão emocional com as salas de cinema pode ser diferente daquela vivida por seus pais e avós. Ao mesmo tempo, parte do público mais velho também se acostumou à conveniência do streaming. Nesse cenário, grandes produções de ação, ficção científica e filmes de super-heróis passaram a disputar espaço com dramas, comédias românticas, documentários e outras histórias que encontram no ambiente digital uma oportunidade de conquistar espectadores.
O futuro das salas de cinema e a estratégia de Hollywood
Kevin Goetz, CEO da Screen Engine, empresa sediada em Los Angeles especializada em pesquisas sobre entretenimento, escreveu um livro publicado em 30 de novembro de 2021 no qual compartilhou experiências de sua carreira analisando o mercado cinematográfico e expressou preocupações sobre o futuro das salas de cinema.
Em uma entrevista concedida à Bloomberg naquele período, Goetz observou que os grandes estúdios de Hollywood recorriam a filmes de ação, histórias futurísticas e megaproduções para tentar atrair o público de volta às telonas. Essa estratégia reflete a importância de oferecer uma experiência visual e sonora que dificilmente pode ser reproduzida em casa, especialmente em produções de grande escala.
Entretanto, o mercado não depende apenas de grandes espetáculos. A variedade de gêneros, a qualidade dos roteiros e a capacidade de criar histórias que despertem o interesse do público também são elementos fundamentais para a sustentabilidade da indústria cinematográfica.
Netflix: da plataforma de streaming a uma força de produção cinematográfica
Em dezembro de 2021, a Netflix anunciou que disponibilizaria um total de 90 filmes ao longo daquele ano. O volume de lançamentos chamou a atenção e reforçou a posição da empresa como uma das forças mais importantes da produção audiovisual mundial.
Tradicionalmente, os grandes estúdios de Hollywood lançavam dezenas de filmes por ano, enquanto a expansão das franquias de super-heróis e de outras propriedades intelectuais conhecidas contribuía para concentrar investimentos em um número menor de projetos. Naquele contexto, a Netflix procurava preencher lacunas deixadas por estúdios que não estavam dispostos a licenciar determinados títulos para o streaming, investindo também em dramas adultos e comédias românticas que haviam recebido menos atenção de parte da indústria.
A estratégia ajudou a diferenciar a plataforma, que passou a competir não apenas pela distribuição de conteúdo, mas também pelo desenvolvimento de produções próprias. O streaming transformou a relação entre estúdios, cineastas e espectadores, ampliando as possibilidades de distribuição e tornando a concorrência pelo tempo e pela atenção do público ainda mais intensa.
Menos quantidade, mais qualidade: a busca da Netflix pelo Oscar

O futuro das salas de cinema depende da capacidade de oferecer uma experiência que se diferencie do entretenimento em casa.
Já em 2021, especulava-se que a Netflix poderia se tornar mais seletiva nos gastos com filmes, priorizando a qualidade das produções em vez de simplesmente aumentar o volume de lançamentos. A busca por reconhecimento em premiações como o Oscar e o Emmy fazia parte desse movimento, uma vez que os prêmios ajudam a ampliar a visibilidade dos títulos e a fortalecer a reputação da empresa.
Em 2018, a Netflix contratou Lisa Taback, executiva especializada em estratégias de premiação, que passou a liderar iniciativas voltadas à campanha de seus filmes e produções televisivas. A empresa investiu dezenas de milhões de dólares em campanhas e estratégias de divulgação durante os anos seguintes, buscando ampliar sua presença nas principais premiações de Hollywood.
O esforço trouxe resultados expressivos. A Netflix conquistou um número elevado de indicações ao Oscar e consolidou sua posição entre os principais concorrentes dos estúdios tradicionais. Ao longo dos anos, a disputa por prêmios tornou-se parte importante da estratégia de posicionamento de suas produções no mercado internacional.
O que mudou na indústria cinematográfica até 2026?
A transformação iniciada na década passada continua em andamento. Em vez de simplesmente substituir as salas de cinema pelo streaming, o mercado vem experimentando diferentes combinações de lançamento, distribuição e exibição.
Em janeiro de 2026, por exemplo, a Netflix anunciou um acordo global de licenciamento com a Sony Pictures Entertainment para disponibilizar filmes do estúdio em sua plataforma após as janelas de exibição nos cinemas e de entretenimento doméstico. A implementação do acordo será gradual, com disponibilidade global prevista para o início de 2029. A parceria mostra que a relação entre estúdios tradicionais e plataformas digitais também envolve licenciamento e cooperação comercial, além da concorrência direta.
Outra mudança é a abertura da Netflix a lançamentos cinematográficos mais amplos para determinados títulos. Em 2026, a empresa anunciou que a adaptação de Nárnia: O Sobrinho do Mago, dirigida por Greta Gerwig, terá lançamento nos cinemas em fevereiro de 2027, antes de chegar à plataforma em abril daquele ano. A estratégia demonstra que a experiência nas telonas ainda pode ser importante para produções selecionadas, mesmo quando o streaming permanece como principal destino de distribuição.
A premiação também continua exercendo influência. Na disputa pelo Oscar de 2026, filmes da Netflix, como Frankenstein e Train Dreams, estiveram entre os títulos reconhecidos pela Academia, e a empresa recebeu 18 indicações distribuídas por seis produções. O resultado reforça a importância de investir em projetos capazes de alcançar reconhecimento artístico e comercial.
Red Notice e a importância de conquistar o público
Em dezembro de 2021, a Netflix destacou Red Notice (Alerta Vermelho, no Brasil), estrelado por Dwayne Johnson, Gal Gadot e Ryan Reynolds, como o filme mais visto de sua história até aquele momento. Embora a produção não figurasse entre as favoritas de muitos críticos para as principais premiações daquele ano, seu desempenho na plataforma demonstrou a capacidade de um título comercial de alcançar uma audiência global expressiva.
O filme representou um exemplo da evolução das operações cinematográficas da Netflix e de sua programação, que já alcançava mais de 213 milhões de assinantes no período. A produção também ilustrou uma questão central para o negócio do entretenimento: o reconhecimento da crítica e o sucesso de público nem sempre caminham juntos.
Para uma plataforma de streaming, a satisfação dos espectadores, o interesse em continuar assistindo e a capacidade de oferecer conteúdo relevante são fatores essenciais. Os prêmios podem contribuir para a reputação de uma produção, mas não substituem a necessidade de conquistar e manter a atenção da audiência.
O cinema continuará existindo na era do streaming?
A disputa entre salas de cinema e plataformas digitais não precisa resultar na vitória definitiva de um único modelo. As telonas continuam oferecendo uma experiência coletiva, com telas gigantes, sistemas de som imersivos e a oportunidade de compartilhar uma história com outras pessoas. Já o streaming proporciona conveniência, flexibilidade e acesso a uma ampla variedade de produções.
Para os estúdios, o desafio é encontrar o equilíbrio entre custos de produção, estratégias de lançamento, reconhecimento artístico e interesse do público. Para os espectadores, a mudança representa mais opções de acesso ao entretenimento, seja em uma sala de cinema, seja em casa.
A nova era do cinema não se resume à substituição das salas pelo streaming, mas à redefinição da maneira como os filmes são produzidos, distribuídos e consumidos. Nesse cenário, empresas como a Netflix precisam equilibrar grandes produções, histórias originais, qualidade artística e satisfação dos espectadores para permanecer competitivas em um mercado em constante transformação.



