Johnny Rice, surfista indígena da Califórnia, é uma figura-chave pouco conhecida na história do surf brasileiro. Nos anos 70, ele ajudou a desenvolver pranchas, formar talentos e impulsionar o esporte no País. Décadas depois, mantém vivo o sonho de voltar a morar no Brasil.

 

Por Mark Lund

Um Índio Americano Que Carrega a História do Surf Brasileiro

Johnny Rice é um nativo americano que ajudou a moldar o surf brasileiro nos anos 70.

Johnny Rice é uma lenda do surf californiano. Um surfista por natureza, que encara as ondas durante a semana e trabalha “shapeando” pranchas no quintal de casa nos fins de semana.

Ele costuma dizer:

“Surfar é bom para você em quatro formas: fisicamente, mentalmente, emocionalmente e espiritualmente.”

Aos 79 anos, Johnny carrega sua herança como nativo Santee Dakota Sioux e Prairie Band Potawatomi. Seus pais cresceram longe do oceano, em Dakota, mas ele encontrou o surf ao chegar ao sul da Califórnia, no final dos anos 40 — e nunca mais se afastou dessa cultura.

Dos primeiros shapes à elite do surf californiano

Johnny começou a surfar ainda jovem e, aos 14 anos, teve uma oportunidade rara: aprender a modelar pranchas com Dale Velzy, considerado o “pai dos shapers”.

Ele trabalhou em um surfshop em Venice Beach e, em 1957, levou seu conhecimento para Santa Cruz, ajudando a impulsionar a cena local ao lado dos Mitchell Bros., pioneiros do primeiro surfshop da cidade.

Durante os anos dourados do surf californiano, Johnny estava no epicentro das transformações — incluindo a chegada do poliuretano (que revolucionou as pranchas) e do neoprene, que tornou o surf mais acessível em águas frias.

Hollywood, Havaí e o boom do surf

Johnny viveu de perto a explosão cultural do surf. Ele testemunhou a abertura da marca O’Neill, em 1959, e o interesse de Hollywood pelo estilo de vida surfista, participando até como figurante em filmes como “Gidget”.

Nos anos 60, mudou-se para o Havaí, onde trabalhou como “Beach Boy” em Waikiki, ao lado de George Downing, surfando alguns dos melhores picos do mundo.

Depois, foi para a Flórida durante o boom da costa leste — sempre dividindo seu tempo entre o trabalho com pranchas e o mar.

Johnny with a Long Board

Sua experiência como shaper revolucionou o design de pranchas no Brasil.

O encontro com o Brasil que mudou tudo

Inspirado pela bossa nova e artistas como Tom Jobim, Johnny começou a sonhar com o Brasil.

Nos anos 70, cruzou o caminho de surfistas brasileiros que o convenceram a tentar a vida no País. Em 1974, ele chegou com a família — sem garantias, apenas com experiência e coragem.

Instalou-se no Guarujá, na Praia do Tombo, onde montou sua base por quase cinco anos.

O impacto no surf brasileiro

No Brasil, Johnny encontrou um cenário em transformação — e ajudou a acelerá-lo.

Com sua experiência, passou a:

  • Treinar novos shapers
  • Desenvolver designs inovadores
  • Influenciar toda uma geração do surf nacional

Suas pranchas viraram símbolo de status. Mais do que isso, ele foi pioneiro ao: Criar uma das primeiras equipes de surf patrocinadas com recursos próprios

Ele ajudou jovens talentos, como Tinguinha, que não tinha condições de comprar uma prancha, a se tornar um nome relevante no surf.

Também identificou e apoiou nomes como:

  • Neno Matos
  • Neco Carbone
  • Alfio Lagnado, futuro dono da marca Hang Loose

A despedida e a saudade do Brasil

Ele foi pioneiro ao criar uma das primeiras equipes de surf patrocinadas no País.

Ele foi pioneiro ao criar uma das primeiras equipes de surf patrocinadas no País.

Apesar do sucesso, dificuldades como visto permanente e questões pessoais levaram Johnny a deixar o Brasil em 1978.

Mas algo nunca mudou: Seu amor pelo País

Ele mantém o português, conta piadas brasileiras, guarda lembranças e fala com carinho do “jeitinho brasileiro”. A palavra “saudade” faz parte do seu vocabulário cotidiano.

O sonho que ainda move Johnny Rice

Hoje, Johnny vive em Santa Cruz, em uma casa que parece um pequeno museu do surf, cercado por pranchas, fotos e memórias.

Mesmo após mais de 50 anos de surf, ele continua ativo, shapeando e surfando ao lado de sua esposa, Rosemarie.

Mas seu maior sonho permanece simples e profundo: Voltar ao Brasil, morar perto da praia e um dia dizer: “Sou brasileiro.”

*Atualização: Johnny Rice, um conhecido shaper de prancha de surf de Santa Cruz, cuja carreira itinerante começou em 1950, morreu de pneumonia em julho de 2015, aos 77 anos.

**Mark Lund (autor deste texto) é mais um desses americanos apaixonados pelo Brasil, vivendo a mais de 30 anos na praia de Maresias/SP. Promotor de eventos e campeonatos profissionais de surf e dono do bar Legends.

The Native-American Johnny Rice.

O nativo americano Johnny Rice

FAQ – Perguntas Frequentes

1. Quem é Johnny Rice?
Johnny Rice é um surfista e shaper indígena norte-americano que teve papel importante no desenvolvimento do surf brasileiro nos anos 70.

2. Quando Johnny Rice veio ao Brasil?
Ele chegou ao País em 1974 e viveu principalmente no Guarujá até 1978.

3. Qual foi a contribuição dele para o surf brasileiro?
Treinou shapers, desenvolveu pranchas modernas e ajudou a revelar talentos, além de criar uma das primeiras equipes patrocinadas.

4. Por que ele deixou o Brasil?
Principalmente por dificuldades com visto permanente e questões pessoais.

5. Ele ainda tem ligação com o Brasil?
Sim. Johnny mantém o idioma, memórias e o desejo de voltar a viver no País.