O governo dos Estados Unidos intensificou as ações de fiscalização imigratória e o ICE realizou mais de 10 mil prisões em apenas cinco dias. A nova estratégia prioriza operações mais discretas, mas tem provocado aumento da apreensão entre comunidades de imigrantes e reacendido o debate sobre a política migratória do governo Donald Trump.

A nova estratégia do ICE privilegia operações discretas, mas ampliou significativamente o número de prisões

A nova estratégia do ICE privilegia operações discretas, mas ampliou significativamente o número de prisões

Nos últimos dias de junho de 2026, as autoridades de imigração dos Estados Unidos prenderam mais de 10 mil pessoas em situação migratória irregular nos últimos cinco dias, em uma das maiores intensificações das operações do U.S. Immigration and Customs Enforcement (ICE) desde o início do segundo mandato do presidente Donald Trump.

Segundo documentos obtidos pelo The New York Times e entrevistas com autoridades federais, a alta nas detenções ocorreu após uma orientação interna para que agentes ampliassem significativamente o número de prisões. A nova estratégia praticamente dobrou a média diária de detenções, que anteriormente girava em torno de 1.000 pessoas por dia, elevando o objetivo para aproximadamente 2.000 prisões diárias.

A ofensiva ocorre em um momento em que o governo Trump busca cumprir a promessa de ampliar as deportações em larga escala, uma das principais bandeiras da política migratória da atual administração.

Operações mais discretas, mas com alcance ampliado

Diferentemente das grandes operações realizadas em 2025 — amplamente divulgadas com antecedência e concentradas em cidades como Nova York, Los Angeles e Chicago —, a nova fase da fiscalização vem sendo conduzida de forma mais silenciosa.

De acordo com o secretário de Segurança Interna, Markwayne Mullin, a intenção é reduzir a visibilidade das operações após as críticas geradas por ações anteriores, incluindo uma operação de um mês em Minnesota que terminou com a morte de dois cidadãos americanos durante a atuação de agentes federais.

Mesmo sem grandes anúncios públicos, agentes do ICE passaram a intensificar abordagens em diferentes situações do cotidiano.

Entre os locais e circunstâncias onde as detenções vêm ocorrendo estão:

  • comparecimentos obrigatórios às autoridades de imigração;
  • paradas de trânsito;
  • abordagens em vias públicas;
  • outras ações rotineiras de fiscalização.

Documentos internos indicam que o sábado registrou o maior volume de prisões do período, com mais de 2.400 detenções em um único dia.

Além do aumento nas prisões, a população sob custódia do ICE também cresceu rapidamente. Dados internos apontam que o número de pessoas detidas nas instalações da agência aumentou em cerca de 4 mil, ultrapassando 63 mil imigrantes sob custódia até a primeira semana de julho de 2026.

Casa Branca teria pressionado por mais prisões

Segundo três autoridades ouvidas pelo The New York Times, dirigentes do ICE foram informados de que a Casa Branca desejava ampliar significativamente o ritmo das prisões.

Uma das fontes afirmou que ainda não está claro por quanto tempo esse volume poderá ser mantido, mas que os gestores da agência passaram a trabalhar considerando 2 mil detenções diárias como o novo padrão operacional.

Em mensagens internas enviadas aos servidores, líderes da agência elogiaram os resultados alcançados.

O diretor da divisão responsável pelas deportações do ICE, Marcos Charles, agradeceu aos agentes pelo desempenho durante o fim de semana, afirmando que a dedicação das equipes permitiu alcançar “resultados operacionais notáveis” nas ações de fiscalização e remoção de imigrantes.

Ainda segundo autoridades americanas, supervisores receberam orientação para manter o maior número possível de agentes trabalhando sete dias por semana, destinando cerca de 80% do efetivo às operações de prisão.

Governo Trump reforça discurso de combate à imigração ilegal

A intensificação das operações ocorre poucos dias após decisões recentes da Suprema Corte dos Estados Unidos relacionadas à política migratória.

Embora a Corte tenha mantido o entendimento de que crianças nascidas em território americano continuam tendo direito à cidadania por nascimento, também ampliou, em outras decisões recentes, a margem de atuação do governo federal para implementar políticas de imigração.

Em nota oficial, o Departamento de Segurança Interna (DHS) reafirmou a posição do governo.

“Nossa mensagem é clara: se você entrar ilegalmente em nosso país, nós o encontraremos, prenderemos e deportaremos.”

A declaração foi feita pela porta-voz do órgão, Lauren Bis, reforçando o posicionamento adotado pela administração Trump desde o início do mandato.

Segundo informações divulgadas pela Fox News no dia 1º de julho de 2026, com base em dados fornecidos por uma fonte do DHS, a intensificação das operações também ocorre com o apoio do aumento de recursos destinados ao ICE. A emissora informou ainda que o departamento afirma que cerca de 70% das pessoas presas pela agência possuem acusações criminais ou condenações anteriores nos Estados Unidos. O dado representa o posicionamento oficial do governo americano e não foi detalhado, na reportagem, quanto à natureza dessas acusações ou condenações.

Medo cresce entre comunidades de imigrantes

Advogados de imigração, líderes religiosos e organizações de apoio a imigrantes relatam um aumento significativo do medo entre famílias estrangeiras.

Comunidades de imigrantes relatam aumento do medo e da insegurança

Comunidades de imigrantes relatam aumento do medo e da insegurança

Segundo relatos reunidos pelo The New York Times, muitos imigrantes passaram a evitar sair de casa por receio de serem abordados durante atividades rotineiras, como dirigir, fazer compras ou comparecer a compromissos previamente agendados com autoridades migratórias.

O aumento da fiscalização também ocorre poucos dias após outra decisão da Suprema Corte permitir ao governo encerrar proteções contra deportação para determinados grupos beneficiados pelo programa Temporary Protected Status (TPS), voltado a pessoas oriundas de países afetados por guerras ou desastres naturais.

Casos relatados em diferentes estados reforçam percepção de aumento da fiscalização

Advogados especializados em imigração e organizações de assistência a estrangeiros afirmam que o aumento das operações do ICE já é percebido em diversas regiões dos Estados Unidos. Relatos reunidos pelo The New York Times apontam que as detenções passaram a ocorrer em situações consideradas rotineiras, inclusive durante comparecimentos previamente agendados às autoridades migratórias.

No sul do Texas, a religiosa nigeriana Sister Letty Ugboaja foi presa na manhã de domingo, 28 de junho de 2026, enquanto seguia para uma igreja, segundo informou Sister Norma Pimentel, colega da religiosa e conhecida por seu trabalho de apoio a migrantes na fronteira.

Ugboaja também atua como enfermeira e presta serviços em uma paróquia da região. Após a prisão, Pimentel afirmou ter acionado lideranças locais e representantes do Congresso americano, que passaram a acompanhar o caso.

Ainda no domingo, a religiosa foi liberada da custódia do ICE. Segundo Pimentel, Ugboaja estava profundamente abalada quando deixou o centro de detenção.

“Levou algum tempo até que ela conseguisse falar. Ela estava chorando”, relatou.

Governo afirma priorizar criminosos e organizações cobram transparência

O governo Trump afirma que o endurecimento das operações tem como prioridade pessoas acusadas ou condenadas por crimes.

Em declaração à Fox News, a porta-voz do DHS, Lauren Bis, afirmou que aproximadamente 70% das prisões realizadas pelo ICE envolvem imigrantes em situação irregular que já foram acusados ou condenados por algum crime nos Estados Unidos.

Segundo a representante do governo, a estratégia busca cumprir a promessa do presidente Donald Trump de deportar indivíduos considerados perigosos para a segurança pública.

A declaração, no entanto, contrasta com relatos apresentados por advogados de imigração e organizações de defesa dos direitos dos imigrantes, que afirmam acompanhar detenções de pessoas sem antecedentes criminais, inclusive durante comparecimentos previamente marcados junto às autoridades migratórias.

Até o momento, o governo americano não divulgou um detalhamento completo do perfil de todas as pessoas presas durante essa nova fase das operações.

Decisão da Suprema Corte mantém cidadania por nascimento

A intensificação das ações do ICE ocorre dias após uma importante decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos sobre a política migratória.

No dia 30 de junho de 2026, os ministros rejeitaram a tentativa do presidente Donald Trump de acabar com o direito à cidadania por nascimento, preservando o entendimento histórico de que, em regra, crianças nascidas em território americano são cidadãs dos Estados Unidos, independentemente da situação migratória dos pais.

Após a decisão, Trump voltou a defender mudanças na legislação e pediu que o Congresso trabalhe para alterar as regras atuais.

Em publicação na rede Truth Social, o presidente afirmou que uma emenda constitucional não seria necessária e declarou que apoiaria integralmente iniciativas legislativas voltadas ao fim da cidadania automática por nascimento.

Ao mesmo tempo, outras decisões recentes da Suprema Corte ampliaram a capacidade do governo federal de implementar determinadas políticas migratórias, fortalecendo parte da estratégia da atual administração.

Um cenário de maior fiscalização e de crescente insegurança entre imigrantes

A nova fase das operações do ICE demonstra uma mudança de estratégia: menos ações amplamente divulgadas e mais fiscalizações distribuídas pelo cotidiano das cidades americanas.

Enquanto a Casa Branca destaca o aumento das prisões como parte do compromisso de combater a imigração irregular, advogados, entidades religiosas e organizações de defesa dos direitos dos imigrantes relatam um ambiente de crescente apreensão entre famílias estrangeiras.

Para milhões de imigrantes — incluindo brasileiros que vivem nos Estados Unidos — o momento exige atenção redobrada às obrigações migratórias, acompanhamento jurídico quando necessário e informação confiável diante das constantes mudanças na política de imigração do país.

Independentemente das posições políticas sobre o tema, o aumento das operações evidencia como decisões governamentais e judiciais têm impacto direto na rotina de comunidades inteiras, influenciando não apenas processos migratórios, mas também a sensação de segurança, estabilidade e pertencimento de milhares de famílias que construíram suas vidas nos Estados Unidos.

FAQ – Perguntas Frequentes

1. Quantas pessoas foram presas pelo ICE nos últimos dias?

Segundo dados divulgados por autoridades americanas e reportagens da imprensa dos Estados Unidos, o ICE realizou mais de 10 mil prisões em cinco dias, praticamente dobrando a média diária registrada anteriormente.

2. Quem está sendo alvo das operações do ICE?

O governo americano afirma que a prioridade são pessoas em situação migratória irregular, especialmente aquelas acusadas ou condenadas por crimes. No entanto, advogados de imigração relatam casos envolvendo pessoas sem antecedentes criminais detidas durante comparecimentos de rotina ou abordagens em vias públicas.

3. Brasileiros também podem ser afetados?

Sim. As operações não são direcionadas a uma única nacionalidade. Qualquer pessoa em situação migratória irregular pode ser alvo da fiscalização, inclusive brasileiros.

4. A cidadania por nascimento acabou nos Estados Unidos?

Não. A Suprema Corte manteve o entendimento de que, em regra, crianças nascidas em território americano continuam tendo direito à cidadania, mesmo quando seus pais estão em situação migratória irregular.

5. Por que o número de prisões aumentou?

Segundo documentos e autoridades ouvidas pela imprensa americana, houve orientação para ampliar o ritmo das operações do ICE, como parte da estratégia do governo Donald Trump de intensificar a fiscalização migratória e aumentar as deportações.