A fé do brasileiro que vive no exterior vai além das igrejas e rituais tradicionais. Entre saudade, memória afetiva e distância da família, a espiritualidade se reinventa como forma de pertencimento. O artigo reúne relatos de brasileiros nos Estados Unidos que transitam entre catolicismo, espiritismo, religiões afro-brasileiras e práticas pessoais de fé. Um olhar sensível sobre identidade, melancolia e esperança longe do Brasil.

Por Kátia Moraes

A espiritualidade brasileira se constrói menos em dogmas e mais na experiência íntima de fé, memória e afeto.

A espiritualidade brasileira se constrói menos em dogmas e mais na experiência íntima de fé, memória e afeto.

A fé do povo brasileiro nasce do encontro entre tradição católica, espiritualidade pessoal, religiões afro-brasileiras, espiritismo, cristianismo evangélico e buscas individuais que atravessam fronteiras. É uma fé marcada pela esperança, mas também por melancolia, memória e saudade.

No início de novembro, ouvi dizer que meu amigo Daniel havia “pirado”. Algumas pessoas o levaram a um hospital depois que um médico avaliou sua condição. A notícia ficou comigo e me fez refletir sobre a melancolia que atinge muitos brasileiros no fim do ano.

Pensei na autobiografia de Gandhi, nos livros sobre budismo que li tentando encontrar um elo perdido — algo que já não encontro mais na Igreja Católica enquanto instituição. A melancolia, afinal, não se explica apenas pela mudança de estação. No Brasil, é verão. Ainda assim, a ideia de família reunida no Natal e no Ano Novo não é encantadora para muita gente — e talvez seja ainda menos atraente para quem vive fora do país de origem.

Acredito que somos cidadãos do mundo, mas nossa psiquê guarda lembranças que nos tornam únicos. Como escreveu William Styron, a melancolia é uma “tristeza psíquica”.

Fé, Distância e Memória Afetiva

Em uma quinta-feira de novembro, bati papo com as cantoras Sônia Santos e Ana Gazzola. Ana recorda que o Natal no Rio Grande do Sul sempre foi motivo de alegria. Sua mãe, muito católica, organizava missas e presépios vivos com as crianças. Enquanto ela descrevia a cena, eu conseguia visualizar meninas e meninos correndo para todos os lados.

Depois de se mudar para Los Angeles, Ana foi gradualmente se afastando da igreja, mas nunca deixou de rezar. Ela se acalma quando a mãe lhe lembra que é protegida por seis anjos da guarda. Nos últimos anos, Ana passou a frequentar um templo budista para cantar o mantra Nam Myo Ho Ren Ge Kyo. Segundo ela, isso lhe traz leveza e esperança.

Sônia cresceu no Rio de Janeiro em uma família espírita kardecista. Todo Natal, seu pai fazia um discurso sobre como as pessoas bebiam demais e transformavam o nascimento de Jesus em carnaval. Nos Estados Unidos, ela não encontrou o mesmo espaço de diálogo e reflexão espiritual que o kardecismo lhe oferecia no Brasil. Para preencher esse vazio, fala com a família ao telefone. A conta vem alta, mas a alma fica confortada.

Será que a hipocrisia cresce junto com o nível da miséria?

Saudade é o sentimento que atravessa o corpo e a memória, ligando o que ficou para trás ao que ainda sustenta a identidade.

Saudade é o sentimento que atravessa o corpo e a memória, ligando o que ficou para trás ao que ainda sustenta a identidade.

Hipocrisia, Espiritualidade e Fé Íntima

Tendo a achar que essa contradição existe no mundo todo. A cantora baiana Renni Flores se afastou do catolicismo quando percebeu essa dicotomia entre discurso e prática. Hoje, conversa com Deus de forma direta e encontrou conforto nessa espiritualidade íntima.

“Era horrível assistir as pessoas serem tão desumanas logo ali, na saída da missa. Era como se tudo o que tinha acabado de ser pregado fosse completamente apagado da cabeça delas.”

O presidente do Centro Cultural Brasil Brasil, Amén Santo, também nunca se sentiu confortável com a hipocrisia nem com o consumismo do Natal. Cresceu no candomblé, mas frequentava a missa “como qualquer outro brasileiro”. Ele nunca gostou de olhar para estátuas de Jesus crucificado.

Já o pianista e compositor Rique Pantoja se define como cristão. Em sua igreja não há estátuas. Criado em família católica, ele acredita que a hipocrisia é inerente ao ser humano, não à religião. Rezar faz parte do seu cotidiano, em uma conversa constante com Deus.

Caminhos Religiosos e Identidade

Alfredo Fulchignoni, do Kingdom Broadcast Network, foi criado em uma família italiana católica, mas desde 1992 é cristão evangélico. Não bebe nem fuma e vê o fim do ano como um período de reflexão.

O baterista Sandro Feliciano associa o Natal à família e costuma passar a data em São Paulo. Ele toca em uma igreja gospel sem estátuas, mas com crucifixo. A presença forte da música nos cultos nos Estados Unidos o atraiu, já que, na época em que saiu do Brasil, isso ainda não era comum por lá.

O artista plástico Áureo Silva cresceu em uma família radicalmente batista. Abandonou a igreja quando as festas da adolescência passaram a competir com o horário da missa. A pressão da mãe o levou à rebeldia. Hoje, ele se considera uma pessoa espiritual e, quando se sente desequilibrado, conversa com seu “guia”.

Para muitos brasileiros, a religião institucional perde espaço para uma fé pessoal, cotidiana e menos hierárquica.

Para muitos brasileiros, a religião institucional perde espaço para uma fé pessoal, cotidiana e menos hierárquica.

Saudade: A Raiz da Melancolia

A maioria dos brasileiros com quem conversei cresceu em ambiente católico, participou de presépios vivos e corais da igreja. Hoje, se veem como seres espirituais. Tentam tratar os outros como gostariam de ser tratados, conversam com Deus à sua maneira e a qualquer hora, e não gostam de ser pressionados à conversão.

A melancolia surge quando existe saudade. Saudade da rabanada da mãe, do cafuné da avó, da bacalhoada da tia, da conversa regada a vinho, do calor humano que não se encontra no país onde se vive.

Há também a tristeza provocada pela consciência social: a certeza de que muitas famílias não ganharão presentes — e talvez nem tenham um prato de comida. O brasileiro é, acima de tudo, um ser esperançoso. Que nossas preces incluam o desejo de que cada brasileiro tenha ao menos três refeições por dia e que, em um futuro próximo, o Brasil seja um país mais justo e menos violento.

*Esse artigo foi originalmente escrito em 2003

** Katia Moraes é cantora, compositora e artista carioca. Ela é colaboradora de longa data da revista Soul Brasil e vive em Los Angeles desde 1990. Para saber mais sobre ela, visite: www.katiamoraes.com

FAQ – Perguntas Frequentes

A fé do brasileiro está ligada a uma única religião?
Não. A maioria dos brasileiros transita entre tradições religiosas e práticas espirituais pessoais.

Por que o fim do ano desperta melancolia em muitos brasileiros?
Por intensificar a saudade, a distância da família, a memória afetiva e a consciência das desigualdades sociais.

O que significa “saudade” nesse contexto?
É um sentimento profundo de ausência e pertencimento, ligado à memória, ao afeto e à identidade cultural.

A espiritualidade substitui a religião institucional?
Para muitos brasileiros, sim. A fé se torna mais íntima, menos ligada a dogmas e mais ao cotidiano.