A capoeira, expressão cultural brasileira que mistura luta, dança, música e filosofia, também carrega uma história de resistência feminina. Apesar de barreiras históricas e preconceitos, mulheres conquistaram espaço na roda e hoje ajudam a expandir a capoeira pelo Brasil e pelo mundo.
Por Monique Mizrahi
A capoeira é liberdade, expressão, criação e improviso. É ao mesmo tempo canção, dança, arte marcial e filosofia de vida.
Mais do que uma prática física, ela carrega valores como:
• respeito
• dignidade
• graça e ritual
• tradição cultural
• resistência e sobrevivência
Na roda, a capoeira se transforma em diálogo corporal, música e estratégia — uma arte marcada pela malícia, pela inteligência e pela história.
Mulheres e a Luta por Espaço
Ao longo da história, mulheres de diferentes classes sociais lutaram por seus direitos, desde o direito ao voto até o direito de escolher seus próprios caminhos.
Em sociedades antigas, mulheres já ocupavam posições relevantes:
• parteiras e curandeiras, com profundo conhecimento de medicina natural
• guerreiras e líderes militares, respeitadas por sua coragem
• figuras de liderança comunitária
Com o avanço da revolução científica e da industrialização, porém, consolidou-se a ideia de que a mulher seria um “sexo frágil”, destinado ao espaço doméstico.
Nas últimas décadas, essa visão vem sendo questionada. Mulheres passaram a conquistar autonomia, independência e reconhecimento, inclusive em áreas historicamente masculinas — como a capoeira.
A História: O Surgimento da Capoeira

A capoeira nasceu como uma forma de resistência e sobrevivência entre africanos escravizados no Brasil
Para entender o papel das mulheres na capoeira, é essencial compreender suas origens.
Entre 1538 e 1888, milhões de africanos foram capturados e levados à força pelos portugueses para o Brasil, então colônia. Esses homens e mulheres foram:
• separados de suas famílias
• batizados à força
• marcados com ferro
• submetidos a trabalho brutal
Os colonizadores tentaram apagar línguas, culturas e identidades africanas, separando pessoas de uma mesma etnia.
Nas plantações, os escravizados viviam sob condições desumanas. Enquanto muitos trabalhavam no campo, mulheres frequentemente eram forçadas a trabalhar dentro das casas senhoriais, enfrentando exploração e violência.
A Capoeira como Estratégia de Resistência
Nas senzalas, os escravizados encontraram na capoeira uma forma de resistência e sobrevivência.
Mesmo sem falar a mesma língua, compartilhavam um objetivo comum: a liberdade.
Para escapar da vigilância dos senhores, transformavam a luta em algo que parecia:
• dança
• ritual religioso
• celebração cultural
Assim, escondiam sua preparação física e estratégica.
Quilombos e a União pela Liberdade
No século XVII, muitos escravizados fugiram e formaram comunidades autônomas conhecidas como quilombos.
Nesses espaços de resistência, a capoeira era praticada como uma arte marcial improvisada, caracterizada por:
• movimentos circulares
• agilidade e reflexos rápidos
• jogo estratégico entre dois adversários
• música e canto em roda
Tanto homens quanto mulheres treinavam capoeira, pois a defesa da comunidade dependia de todos.
Como dizia Mestre Boa Gente, ser forte não era uma escolha — era uma necessidade para sobreviver.
Proibição e Perseguição
Em 1888, o Brasil aboliu oficialmente a escravidão. Pouco depois, a capoeira também foi proibida.
Ex-escravizados migraram para as cidades, enfrentando falta de trabalho e marginalização. Muitos capoeiristas foram perseguidos e presos.
Nesse período, a prática ficou majoritariamente restrita aos homens, enquanto mulheres eram pressionadas a permanecer no ambiente doméstico.
Segundo o Contra-Mestre Jô, do Grupo Capoeira Brasil em Nova York:
“Existia o preconceito de que mulher não podia participar de atividades que envolvessem riscos.”
Mestre Bimba e o Renascimento da Capoeira
A capoeira voltou a ganhar força graças a Mestre Bimba, figura fundamental na história da arte.
Na década de 1930, ele convenceu o governo de Getúlio Vargas de que a capoeira era um patrimônio cultural brasileiro.
Entre suas contribuições:
• criação da primeira academia formal de capoeira em Salvador
• sistematização de treinos e sequências técnicas
• abertura da prática para pessoas de diferentes classes sociais e também para mulheres
A partir desse momento, mulheres puderam retornar gradualmente à roda.
O Presente: As Mulheres na Roda
Durante muito tempo, o preconceito permaneceu.
“No Brasil diziam que capoeira era coisa de homem”, lembra o Contra-Mestre Jô, natural de Juazeiro, na Bahia.
Mesmo assim, muitas mulheres insistiram em participar.
A Instrutora Guerreira, por exemplo, começou
a treinar em Minas Gerais apesar da resistência familiar. Hoje ela ensina capoeira em Seattle, nos Estados Unidos.
A Capoeira no Mundo
Nas últimas décadas, capoeiristas brasileiras emigraram e levaram a arte para diversos países.
Hoje existem academias em cidades da:
• América do Norte
• Europa
• Austrália
• Japão
A presença feminina cresceu significativamente.
Em muitos grupos, a proporção já chega a 50% de mulheres e 50% de homens entre os alunos.
O Desafio das Graduações
Apesar do crescimento da participação feminina, ainda existe um desequilíbrio nas graduações mais altas da capoeira.
Os principais níveis incluem:
• Aluno
• Instrutor
• Professor
• Contra-Mestre
• Mestre
Segundo a Professora Marrom, do Grupo Mandinga de San Diego:
“É mais raro que uma mulher alcance as graduações mais altas.”
Mesmo assim, muitas capoeiristas continuam lutando por reconhecimento.
O Futuro das Mulheres na Capoeira
A discussão sobre diferenças físicas entre homens e mulheres também aparece dentro da capoeira.
Mas especialistas destacam que a arte depende mais de estratégia, agilidade e inteligência corporal do que apenas força.
A Mestra Suelly, pioneira na América, afirma:
“Todos têm que encontrar o seu próprio jogo.”
União, Respeito e Expressão
Capoeiristas destacam que o futuro das mulheres na capoeira passa por:
• mais união entre mulheres
• confiança dentro da roda
• persistência no treinamento
• respeito às tradições da capoeira
Outro aspecto fundamental é a música, elemento central da roda.
A capoeira utiliza instrumentos tradicionais como:
• berimbau
• pandeiro
• atabaque
As ladainhas, cantos tradicionais que abrem a roda, contam histórias de mestres, povos e lugares.
Segundo a Professora Marrom:
“A música da capoeira conta histórias e lembra povos, épocas e lugares. É essencial.”
Axé, Dendê e Futuro
Apesar dos desafios, muitas capoeiristas acreditam que o futuro é promissor.
Para elas, a capoeira continuará crescendo com mais espaço, reconhecimento e protagonismo feminino.
Como diz uma das vozes da roda:
“As mulheres são fortes e femininas — e isso é o que torna a capoeira ainda mais bonita.”
Iê viva a mulher na capoeira, camará!
Axé e dendê.
* Monique Mizrahi é uma capoeirista chamada Risadinha.
** Todas as capoeiristas recebem um apelido no seu primeiro batizado. Historicamente, as capoeiristas tiveram muitos apelidos para disfarçar sua verdadeira identidade]. Gostaríamos de agradecer a participação de Dendê, Ginasta, Morango, Suave, Geneviève, Mestre Boa Gente, Girafa, Trança, e Concha do Mar. O grupo de Monique Capoeira Batuque, e agradecimentos especiais a Mestranda Suelly, Contra-Mestre Jô, e as instrutoras Marrom e Guerreira pela colaboração neste artigo.
FAQ – Perguntas Frequentes
As mulheres sempre participaram da capoeira?
Sim. Durante o período dos quilombos, mulheres também treinavam e lutavam capoeira. Porém, ao longo do tempo, preconceitos sociais reduziram sua participação.
Quem ajudou a legalizar a capoeira no Brasil?
O principal responsável foi Mestre Bimba, que na década de 1930 convenceu o governo de Getúlio Vargas a reconhecer a capoeira como patrimônio cultural.
Existem muitas mulheres praticando capoeira hoje?
Sim. Em muitos grupos de capoeira atualmente, mulheres já representam cerca de 50% dos praticantes.
Por que ainda existem menos mulheres mestres?
Questões históricas, sociais e estruturais fizeram com que menos mulheres chegassem às graduações mais altas, mas essa realidade está mudando.
A capoeira depende de força física?
Não apenas. A capoeira valoriza agilidade, estratégia, musicalidade e inteligência corporal, permitindo que pessoas de diferentes perfis participem.
