Skate e surfe passaram de esportes vistos com preconceito e associados à marginalidade no Brasil a modalidades olímpicas que conquistaram milhões de fãs. A trajetória de atletas como Bob Burnquist, Rayssa Leal e Ítalo Ferreira ajudou a transformar a percepção sobre esses esportes radicais.

 

Por Laís Oliveira

pista skate

1977, Nova Iguaçu. Primeira pista de skate construída no Brasil, no Rio de Janeiro.

Essa é uma das modalidades esportivas mais jovens no Brasil, mas, graças à sua inserção nos Jogos Olímpicos, conquistou milhares de jovens no país. O skate surgiu nos Estados Unidos, nos anos 1960, e, no final dessa mesma década, chegou ao Rio de Janeiro graças a filhos de americanos e brasileiros que viajavam aos EUA.

Mas a popularização dessa modalidade de esporte radical só começou nos anos 70, quando apareceu na Revista Pop, uma das mais lidas entre os jovens da época. Surgiram empresas brasileiras especializadas na venda de skates e produtos ligados ao esporte.

Em 1976, a primeira pista da América Latina foi inaugurada em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro.

O preconceito contra os skatistas

O fato é que o esporte nunca foi tão popular e bem recebido quanto o futebol, por exemplo. O período no Brasil era marcado pela ditadura militar e, rapidamente, o skate foi tido como um esporte de vagabundo, maconheiro e de quem não queria trabalhar.

Não existia muito apoio e incentivo à prática por parte dos pais e educadores. Muitos jovens, inclusive, apanhavam de policiais nas ruas quando eram pegos em cima das quatro rodinhas, criando manobras nas pistas e avenidas.

No início dos anos 80, quando a moda migrou para os patins e a BMX, os fabricantes que não adaptaram sua produção começaram a falir aos poucos. O investimento caiu e aumentou o preconceito com os skatistas, que eram considerados marginais.

Quando o skate foi proibido em São Paulo

Em 1988, Jânio Quadros (PTB), então prefeito de São Paulo, proibiu a prática de skate na cidade. A prefeitura não queria skatistas nas ruas da Zona Sul, já que o esporte era visto como marginal. Sua sucessora, a prefeita Luiza Erundina, revogou a medida.

Mesmo com a liberação, a modalidade ainda era pouco apoiada. Os próprios skatistas juntavam dinheiro para construir pistas particulares e organizar campeonatos pequenos. Em 1984, uma nova onda de skate voltou a crescer junto à indústria brasileira. Muitos filmes americanos passavam na televisão e mostravam jovens de várias idades andando de skate e se dedicando à prática.

A TV aberta do Brasil foi influenciada e passou a dar atenção ao esporte, o que ajudou a disseminar a modalidade. Entre o meio dos anos 80 e toda a década de 90, diversas estrelas internacionais do skate surgiram. Um dos mais famosos era Tony Hawk, e o skate voltou a ser amado pela juventude, principalmente na modalidade street.

Bob Burnquist e o reconhecimento internacional

O skate brasileiro passou das ruas e do preconceito à conquista de medalhas olímpicas.

O skate brasileiro passou das ruas e do preconceito à conquista de medalhas olímpicas.

Em 1997, o skatista carioca Bob Burnquist, que vive na Califórnia desde 1995, foi eleito o melhor skatista do ano no mundo após criar uma nova técnica que revolucionou o esporte, o switchstance. Na entrada dos anos 2000, foi criada a Confederação Brasileira de Skate (CBSk).

Segundo o Datafolha, naquela época já havia mais de 2,7 milhões de skatistas no país. A partir daí, centenas de pistas foram construídas por todo o Brasil, facilitando o treino de milhares de atletas, tanto amadores quanto profissionais.

Skate nas Olimpíadas e a nova febre no Brasil

Depois da consolidação do skate como esporte ao redor do mundo, o Comitê Olímpico Internacional (COI) anunciou que a modalidade faria parte dos Jogos Olímpicos a partir de Tóquio 2020. Com a pandemia, as Olimpíadas foram transferidas para 2021 e oficialmente começaram. E foi aí que o skate parece ter voltado a virar febre.

Desde o início do mês de julho até o último dia 25/07, de acordo com uma pesquisa do grupo Pequenas Empresas & Grandes Negócios, a busca por skates no e-commerce brasileiro cresceu 614%. mA alta nas buscas coincidiu com o ótimo resultado que o esporte levou ao Brasil.

Até aquele momento, o skate havia dado duas medalhas de prata para o país: Kelvin Hoefler, no masculino, e Rayssa “Fadinha” Leal, de apenas 13 anos, no feminino. Os dois competiram na categoria Street, nos dias 24/07 e 25/07. Ainda havia a categoria Park pela frente.

Rayssa Leal e a quebra do preconceito contra o skate feminino

Rayssa Leal, a “Fadinha”, levou a medalha de prata para o Brasil nas Olimpíadas de Tóquio. A participação da jovem skatista também ganhou destaque por seu impacto entre outras meninas que passaram a se interessar pelo esporte.

“Saber que muitas meninas já me mandaram mensagem no Instagram falando que começaram a andar de skate ou os pais deixaram andar de skate por causa de um vídeo meu, eu fico muito feliz porque foi a mesma coisa comigo. Minha história e a história de muitas outras skatistas que quebraram todo esse preconceito, toda essa barreira de que o skate era só para menino, para homem, e saber que estou aqui e posso segurar uma medalha olímpica, é muito importante para mim”, disse a atleta “Fadinha” ao site do Comitê Olímpico do Brasil (COB).

O surfe também enfrentou preconceito no Brasil

Rayssa Leal, a "fadinha", que levou a medalha de prata para o Brasil nas olimpíadas de Tóquio

Rayssa Leal, a “fadinha”, que levou a medalha de prata para o Brasil nas olimpíadas de Tóquio

Tal qual o skate, o surfe, que apesar de ter chegado ao Brasil ainda nos anos 1940, já foi considerado esporte de vagabundo e ainda hoje é alvo de preconceito. Mas a presença do esporte nos Jogos Olímpicos, pela primeira vez em Tóquio, pode significar, mais do que entretenimento, a derrubada desse antigo preconceito.

Assim como tem acontecido com o skate, é possível que novas portas sejam abertas para os esportes radicais e que eles estejam cada vez mais presentes em grandes competições mundiais.

Ítalo Ferreira faz história e conquista o ouro olímpico

Ítalo Ferreira, medalha de ouro em Tóquio. E o Brasil estava bem representado no surfe naquele ano.

No dia 27/07, o surfista Ítalo Ferreira fez história na modalidade e levou a medalha de ouro ao desbancar o japonês Kanoa Igarashi na grande final. De quebra, o surfista vingou o compatriota Gabriel Medina, eliminado horas antes pelo anfitrião nas semifinais.

O futuro do skate e do surfe no Brasil

Agora resta esperar se essa febre dos esportes radicais vai passar após as Olimpíadas ou se, cada vez mais, novos skatistas e surfistas profissionais se formarão no Brasil com o maior incentivo a essas modalidades e uma visão positiva sobre os atletas.

A trajetória do skate e do surfe mostra uma transformação importante: esportes que durante décadas foram associados ao comportamento marginal passaram a ocupar um espaço de destaque nas maiores competições esportivas do mundo.

A presença olímpica, o crescimento de atletas brasileiros e a maior exposição na mídia ajudaram a ampliar a visibilidade dessas modalidades e de uma nova geração de esportistas.

FAQ — Perguntas Frequentes

1. Quando o skate chegou ao Brasil?

Bob Burnquist foi fundamental para projetar o skate brasileiro no cenário internacional.

Bob Burnquist foi fundamental para projetar o skate brasileiro no cenário internacional.

O skate chegou ao Rio de Janeiro no final dos anos 1960, trazido por filhos de americanos e brasileiros que viajavam aos Estados Unidos. A modalidade começou a se popularizar no país principalmente durante os anos 1970.

2. Quando foi construída a primeira pista de skate da América Latina?

A primeira pista da América Latina foi inaugurada em 1976, em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, marcando um momento importante para a estruturação do skate no Brasil.

3. Por que o skate sofreu preconceito no Brasil?

Durante décadas, o skate foi associado à marginalidade e a jovens considerados “vagabundos” ou que não queriam trabalhar. O preconceito também esteve relacionado à prática nas ruas e à falta de apoio de pais, educadores e autoridades.

4. Quando o skate entrou nas Olimpíadas?

O skate estreou nos Jogos Olímpicos em Tóquio 2020, realizados em 2021 devido à pandemia de Covid-19. Na ocasião, o Brasil conquistou medalhas com Kelvin Hoefler e Rayssa Leal.

5. Quem foi o primeiro brasileiro campeão olímpico de surfe?

Ítalo Ferreira conquistou a medalha de ouro no surfe nos Jogos Olímpicos de Tóquio, realizados em 2021, derrotando o japonês Kanoa Igarashi na final.